Sergio Garloppa – Produtor Artístico Cultural – Carioca, torcedor do Bangu, atualmente Morador de Volta Redonda -RJ. Trabalhou e produziu show de diversos artistas da MPB entre eles Baby do Brasil, Novos Baianos, Moraes Moreira, Elimar Santos, Paulinho Moska, Ivan Lins, Maria Gadu, Zeca Baleiro, Gonzaguinha, Vando, Charlie Brow Junior, Cazuza, e Luiz Melodia. Participou como produtor em 03 Rock in Rio e diversos shows internacionais.

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PAPO DE SOM

Cássia Eller

Em 1999, Cássia Eller acabava de vir de um projeto vitorioso. A parceria com Wally Salomão no disco e no show em homenagem a Cazuza,

 “Veneno Antimonotonia “, dera certo, o que lhe rendera, além do respeito da crítica, que já enxergava nela uma das maiores cantoras daquela geração, uma maior abrangência de público. Mas seu mundo ainda não estava completo. Faltava-lhe um parceiro musical que lhe abastecesse o repertório, lhe ajudasse a direcionar melhor sua carreira a partir de então. Um parceiro que pudesse chamar de seu. Na mesma época, Nando Reis começava a perseguir horizontes maiores do que a carreira com o Titãs. Com um bem sucedido disco solo, “12 de janeiro” (lançado em 1995) e composições vitoriosas nos discos do Skank, Cidade Negra e Marisa Monte, sua habilidade como hitmaker já começava a tomar vulto, mas ele ainda não tinha uma intérprete na mão. Aquela para a qual o tom das suas músicas soasse exato. Nessas condições e com a afinidade musical e de personalidade entre os dois, o encontro deles só poderia resultar numa das parcerias mais bem sucedidas do pop brasileiro .

De aplique nos cabelos, encarando a lente da câmera de Gringo Cardia (que também foi responsável pelo belo ensaio fotográfico que consta no encarte) e vestindo apenas uma camiseta de um clube de natação de Nova Jérsei – que virou objeto de culto entre seus fãs – e uma calcinha, a foto na capa de “Com você… meu mundo ficaria completo” já mostra uma Cássia diferente das de seus outros discos até então. Se bem que a mudança já foi sentida pelo público antes, pois antecedendo o lançamento do álbum, “O segundo Sol” invadiu as rádios e a MTV. Com um belo arranjo de cordas de Luiz Brasil – responsável pelos arranjos do disco – e uma interpretação acima da média de Cássia, o pop perfeito de Nando Reis, com sua letra enigmática, cuja indução profética combinava com as conversas sobre apocalipse que rondavam o ano 2000, tornou-se sucesso absoluto. No clip, que rodou à exaustão, a cantora aparece com a mesma caracterização da capa do disco. Finalmente, a vez dela chegara de verdade. A canção, que abre o álbum, superou o sucesso de “Malandragem” e firmou definitivamente seu nome no mainstream, e se em seus discos anteriores já constavam duas canções de Nando, esse era o primeiro golaço com a parceria realmente efetivada. “Não tem explicação”, conclui a letra de um dos grandes sucessos do ano, cujo sentido seus ouvintes não se cansam de tentar precisar. Se a possibilidade de um mundo completo começa com a sugestão de dois sóis, “Mapa do meu nada” vem a seguir cheio de dedos em becos cheios de bêbados, estradas cariadas e placas de contra-mão. “Não sou desses homens”, canta ela cheia de ironia a letra de Carlinhos Brown, sob o baixo pulsante de Fernando Nunes num rock funkeado que conta com a participação de Jussara Silveira nos vocais. O violão preciso de Luiz Brasil dá o tom e o Rio de Janeiro de batidão e pegação surge como cenário para “Gatas extraordinárias” ( Mais uma que se tornou sucesso!), presente saído da privilegiada cabeça de Caetano Veloso para criar pérolas pop, canção que evidencia, com seus violões , a ótima percussão de Lanlan, a flauta de Zé Canuto e o cantar suavizado de Cássia, a influência que o álbum “Cor de Rosa e Carvão”, de Marisa Monte, teve na concepção desse trabalho. “Você não canta, mãe, você berra. Quem canta é a Marisa Monte”, disse-lhe o filho Chicão, na única vez em que a opinião de alguém teve peso no seu trabalho. “Um branco, um xis, um zero”, parceria de Pepeu Gomes com Arnaldo Antunes e Marisa Monte que resultou na melhor letra do disco, traz o ex-Barão Vermelho Maurício Barros no Hammond (que também toca em “O segundo Sol) e João Viana, filho de Djavan, na bateria e uma pegada que lembra mais os tempos da Cássia roqueira. “Só o cheiro do seu cheiro não consigo deixar para trás, impregnado o dia inteiro nessa roupa que eu não tiro mais”, conclui a cantora com o sacarsmo que sempre lhe foi peculiar antes da guitarra de Walter Villaça fazer um encerramento à la Nirvana. A faixa título, uma canção típica de Nando Reis, que parece até ter saído do seu “12 de janeiro”, vem em seguida mostrando que os problemas cotidianos não são nada perto do amor.

E quem não tinha percebido até então, com essa canção vai perceber que esse é um disco sobre o amor. “Palavras ao vento” começa com um belo Hammond de Paulo Calasans e é mais uma balada pop, parceria de Marisa Monte, dessa vez com outro novo baiano, Moraes Moreira, que virou clássico no repertório da cantora. Curiosamente o sucesso dessa música, que tem todos os elementos para ser um sucesso radiofônico e uma bem-sucedida trilha de novela (já foi de mais de uma) só aconteceu depois da morte da intérprete. Acordeón, xequerê, zabumba e triângulo e “Aprendiz de feiticeiro”, inédita de Itamar Assumpção, mostra que a Cássia fã da Vanguarda Paulistana, embora esteja mais pop, ainda está firme e presente. O belo acordeom de Chico Chagas marca presença embelezando também “Pedra Gigante”, inspirada na Pedra da Gávea, presente de outro tropicalista, Gilberto Gil, numa de suas belas canções de contemplação e amor à natureza, em que Cássia divide os vocais com sua mãe Nancy Ribeiro. O rock ressurge com “Infernal”, música com a qual o autor Nando Reis veio a batizar sua futura banda, e uma declaração de como a parceira tornou seu mundo completo. “Porque a era do futuro você trouxe pra mim, infernal!”, diz a letra esperta antes da levada rock, com baixo, guitarra e bateria fazendo um balanço arrasa quarteirão, desembocar um poderoso trabalho de metais.

“Maluca”, composição do desconhecido compositor de Niterói, Luiz Capucho, fala da beleza das rosas e conta com um belo arranjo de cordas (Luiz Brasil acertou em todas nesse trabalho), a participação da família Morelenbaun e Cassia no cajón . O violão de Cassia dá a introdução e “As coisas tão mais lindas” dá ao disco outro momento de beleza pop. Mais uma de Nando Reis, reza a lenda que o projeto inicial da cantora era gravar um disco inteiro com músicas do novo parceiro, que também atua como produtor do disco, a bela balada é um dos pontos altos de um disco que não tem baixos e daria uma bela canção de encerramento. Mas “Esse filme eu já vi” fica responsável pelo desfecho do álbum. Com um clima jazz de fim de noite, a canção de Luiz Melodia, mais um compositor da época “Marginal” que marca presença, completa o trabalho com uma Cássia descontraída se mostrando mais experiente, mais completa e avisando: “Tô na Rua!”. A fera estava domada, mas não completamente. Sem arranjos equivocados, sem regravações de hits, com um repertório inédito e de alto nível, que passeia através de seus compositores por alguns dos principais momentos do pop brasileiro, e uma produção impecável, “Com você… meu mundo ficaria completo” é de longe o disco mais bem resolvido artisticamente da cantora. Com ele, sua carreira ficou completa. Depois disso, ela ainda viria a se consagrar se apresentando no Rock in Rio, gravaria um acústico para MTV, que se artisticamente não acrescentou nada na sua carreira, serviu para eleva-la ao status de estrela, entraria numa maratona de shows e apresentações e morreria prematuramente aos 39 anos. A cantora que estreou em discos junto com a década e se tornou uma das suas vozes mais emblemáticas, terminava o período presenteando-a com um dos melhores discos gravado nesse tempo. Os anos 90 enfim estavam completos!

Texto: Leandro L.Rodrigues

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