Sergio Garloppa – Produtor Artístico Cultural – Carioca, torcedor do Bangu, atualmente  Morador de Volta Redonda -RJ. Trabalhou e produziu show de diversos artistas da MPB entre eles  Baby do Brasil, Novos Baianos, Moraes Moreira, Elimar Santos, Paulinho Moska, Ivan Lins, Maria Gadu, Zeca Baleiro, Gonzaguinha, Vando, Charlie Brow Junior, Cazuza, e Luiz Melodia. Participou como produtor em 03 Rock in Rio e diversos shows internacionais.

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PAPO DE SOM

 

MICO DE CIRCO – Luiz Melodia
Depois do Sucesso de “Juventude Transviada”, música da trilha sonora da novela “Pecado Capital”, estourou no Brasil inteiro e sob os holofotes da fama, resolveu ir para a Bahia para repensar seus caminhos. Lá, caiu no desbunde, conheceu Jane Reis, seu grande amor e grande companheira de vida e esposa, compôs as músicas que integrariam MICO DE CIRCO seu 3º disco: uma obra dedicada aos marginalizados, uma reflexão do seu papel de artista e do mundo.
O baudelairiano “Mico de Circo”.
A capa traz apenas “Luiz Melodia”. Posando de jeans e óculos escuros num estilo que mistura Taj Mahal (bluesman americano, ídolo do artista cujo um dos filhos chama-se Mahal.
É na contracapa, onde o artista aparece com uma espécie de túnica branca igual ao que o envolve na foto da capa, que aparece o título “Mico de Circo”, uma referência ao bandido Mico Sul, cria do mesmo morro que Melodia, e à condição do cantor enquanto artista, enquanto peça de uma engrenagem. Cada qual com seu papel e seu lugar. Cada qual marginal de um jeito. No encarte o aviso, o disco é um tributo. E segue-se uma lista que mistura nomes de bandidos do São Carlos (Caveirinha, Cara de Cavalo, etc.), com artistas “marginais” (Torquato Neto, Helio Oiticica), amigos do morro e artistas (Roberto Carlos, Jamelão, Angêla Maria), esportistas (Garrincha, Roberto Dinamite) e até políticos (Getúlio Vargas) que representavam a alegria e a esperança desse mundo “apartheideado” da cidade.
Com os metais da Orquestra Tabajara, o disco começa cheio de ironia.
“A voz do morro” de Zé Ketti abre disco como uma resposta aos críticos e diretores artísticos que não se conformavam com um negro vindo do morro não querer seguir a regra mercadologicamente estabelecida e se profissionalizar como sambista. “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor”, canta cheio de deboche e em formato de gafieira a Melodia de um Brasil feliz.
“A voz do morro” – trilha sonora do filme de Nelson Pereira dos Santos cuja trama, assim como o disco, girava de um Rio de Janeiro dividido entre morro e cidade.
O Disco foi gravado por sugestão de Wally Salomão (quem apresenta Luiz Melodia a Caetano, Gal, Bethânia, Jards Macalé).
Grandes participações no disco:

Orquestra Tabajara, Oberdan Magalhães e o balanço magistral da Banda Black Rio dando formato a beleza de “Onde o Sol bate e se firma”.
Curiosidade em “Presente Cotidiano”, que havia tido problemas com a censura cinco anos antes, quando foi gravada por Gal Costa, e só escapou da censura total que havia sido lhe imposta e conseguiu entrar no disco “Índia”, sob a condição de ter sua letra modificada e não ser apresentada em público nem executada nos meios de comunicação de massa. Enfim totalmente liberada, nessa gravação, o criador canta a sua criação como imaginou e o “ Tá tão assim”, que Gal foi forçada a cantar, finalmente é substituído pelo “Tá tão ruim” que os censores impediram de ser dito. “Quem vai querer comprar banana? Quem vai querer comprar a lama?”, pergunta o cantor, em meio ao funk batucado da Black Rio, com a sua divisão rítmica que confundiu inclusive o maestro Arthur Verocai. “Vou caminhar um pouco mais atrás da rua.”, conclui a letra no mesmo espírito flaneur da faixa anterior e que permanecerá por todo o disco. “Giros de sonho”, vem no clima blueseiro, com belos vocais femininos, arranjados por Perinho Santana, emoldurando o belo e marcante canto de Melô e uma letra que, assim como “Pérola Negra”, “Juventude Transviada” e outras, tem sua inspiração em alguma ex-namorada do cantor. Samba funk em alta voltagem da Back Rio é a vez de “O morro não engana”, parceria do compositor com o também parceiro de peladas Ricardo Augusto e que no mesmo ano ganhou uma gravação no disco de estréia de Zezé Mota, aparecer, com violões, teclados, sopros e a pulsação do baixo de Jamil Jones, para encerrar o primeiro lado do disco cheio de suingue. “Morro do medo, morro do sono, morro do sonho, morro no asfalto”, canta a voz do morro num esperto jogo de palavras (“Pobre de mim, pobre de nada”), bem típico de suas incompreendidas letras. O piano de João Donato, parceria que depois se repetiu em outros discos, dá o tom e “Mulato latino”, primeira de muitas músicas que ele gravaria do compositor Papa Kid, entra em cena cheia de latinidade com um belo trabalho percussivo, além do brilhantismo dos vocais do cantor. “Bata com a cabeça” aparece como um recado ameaçador aos seus detratores(“Quem falar por mim/ que ao menos apareça porque vai dançar, onde for/ bata com a cabeça”) num soul nervoso, que é também o primeiro registro fonográfico da guitarra de Victor Biglione, com um arranjo brilhante de Marcio Montarroyos. Em “Falando de pobreza” a guitarra de Perinho Santana dá o tom para uma letra do compositor Tureko que, cheia de angústia, soa irônica e questionadora dos valores e convenções culturais vigentes (“Falando de pobreza sem ser triste, falando de tristeza sem ser pobre, ah, há quanto tempo? ah, quanto custa hoje em dia?”). “Solando no tempo” traz os belos sopros de Oberdan e a voz de veludo do cantor no seu melhor estilo, que tanto influenciaria nossos roqueiros-blueseiros-mpbistas como Cazuza e Cássia Eller, enquanto “Fadas”, canção que anos depois viria a se tornar um clássico no seu repertório, fecha o trabalho de forma magistral.Com, o então “A Cor do Som”, Armandinho já demonstrando o talento para chorinhos que depois marcaria sua carreira, Melodia passeia por uma letra cheia da dubiedade característica da sua forma de se expressar.
A voz poética de “Onde o Sol bate se firma” com um toque de sonhar sozinho sai em qualquer direção. “De passo-a-passo passo”, conclui de forma magistral seu passeio pela cidade dividida. A voz marginalizada agora é poeta. Como num passe de mágica. Num conto de fadas. Mas continua cego e sem direção. Sem juízo. A capa e a contracapa.

Produzido por Guto Graça Mello e lançado pela Som Livre, “Mico de Circo” teve um lançamento inusitado nas ruas de Salvador, com Melodia e Wally Salomão desfilando pelas ruas da cidade numa charrete até o Mercado Sete Portas onde foi distribuído um grande almoço. O artista justificou o lançamento nas ruas dizendo que são nelas que os marginais, os homenageados do disco, se encontram. O disco teve críticas positivas, mas não teve o mesmo trabalho de divulgação nem o mesmo êxito comercial dos anteriores (embora mantenha o mesmo padrão de qualidade). As dificuldades de relacionamento de Melodia com os esquemas da gravadora e o show business começavam a tomar maiores proporções. Começava aí a fama de maldito que acabaria virando uma marca. Depois desse trabalho, sairia da Som Livre e entraria num troca-troca de gravadoras que marcaria sua difícil década de 80 até um retorno triunfal nos anos 90. “Mico de circo” é o fim de um ciclo. Um fechamento que conclui em alto nível a trilogia que marca a genial primeira fase da carreira de um dos mais completos artistas da música brasileira da geração pós tropicália.

Fonte: Release texto de Sergio Garloppa e Texto: Leandro L. Rodrigues.

 

Luiz Melodia – (Álbum “Mico de Circo”) [Áudio Oficial]

 

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