Rosinha de Valença, a mulher que tocava por uma cidade inteira

Por: Milena Machado, da Mana Dinga

“Eu era uma mulher que precisava de sorte, porque era a única contra um número enorme de violonistas, um bando de homens que não estava a fim de me ceder um lugar. Precisava quase arrancar as cordas do violão para que as pessoas compreendessem que eu sabia tocar. Quantas vezes fazia acordes fortíssimos para acordar as pessoas, para que calassem um pouco a boca e prestassem atenção: quando um artista toca ele tem que ser ouvido. Não importa que esteja de saia ou de cuecas”. Palavras da violonista Rosinha de Valença, em 1972, época em que tocava escondida da família, em entrevista ao JB, sobre as dificuldades de ser mulher na música. Mais tarde, Rosinha desbrava o mundo e leva a nossa maravilhosa música brasileira para inúmeros países.

Nasceu em Valença, Interior do Rio de Janeiro, em 30 de julho de 1941. Ainda criança, começou a se interessar por violão, assistindo aos ensaios do conjunto regional de seu irmão Roberto. Estudou sozinha, ouvindo músicas de rádio, e aos 12 anos já tocava violão num regional que animava bailes e na Radio de Valença, acompanhando cantores. Através de Sérgio Porto, conheceu, na boate Au Bon Gourmet, o violonista Baden Powell e Aluísio de Oliveira, produtor da gravadora Elenco, que a contratou para gravar seu primeiro disco. Seu nome artístico foi criado por Sérgio Porto, que costumava dizer que “ela tocava por uma cidade inteira”.

No início da década de 70, Roberto Menescal, violonista consagrado, havia sido convidado para assistir Rosinha tocar na casa de um amigo. Nenhuma mulher tinha despontado no Brasil, até então, como uma virtuose do violão. “Quando vi aquela moça tímida, com um vestidinho de Interior, achei que tinha entrado numa roubada”, lembra Menescal, que logo mudou de opinião. “Ela mandou um violão no melhor estilo Baden Powell”. A comparação com o autor de “Berimbau” também foi lembrada por Turíbio Santos. “Ela era o Baden Powel de saias”.

Foi a violonista do espetáculo Comigo me Desavim, de Maria Bethânia, em 1967, e no ano seguinte iniciou uma série de apresentações na URSS, Israel, Suíça, Itália, Portugal e países africanos, voltando ao Brasil em 1971. Trabalhou, então, com Martinho da Vila, participando de seus quatro LPs seguintes. Em 1974, organizou uma banda que teve várias formações e contou com a participação de artistas como o pianista João Donato, o flautista Copinha e as cantoras Ivone Lara e Miúcha. Um dos espetáculos da sua banda foi gravado pela Odeon, que lançou em 1975 o LP com o título Rosinha de Valença e banda. Tem ainda 11 LPs editados no Brasil, EUA, RFA e França.

Mas, dessas grandes injustiças da vida, a trajetória triunfal da maior violonista do País teve fim, de forma lenta e trágica. No dia 13 de abril de 1992, a violonista estava de férias, em seu apartamento em Copacabana, no Rio. Hipertensa, teve problemas respiratórios que evoluíram para uma parada cardíaca e provocaram a lesão cerebral que a colocou em estado vegetativo por 12 anos.

Morreu em 10 de junho de 2004 e foi enterrada sem a presença de nenhum artista famoso, aos 62 anos. Rosinha, a mulher que deixou por onde andou sua emoção e talento, finalmente descansou. Libertou-se, assim, da imobilidade de movimentos, sobretudo das mãos, que a ajudaram a construir sua trajetória de vida e a escrever, no feminino, a história da música brasileira.

Em 2000, foi homenageada com o show beneficente “Uma noite para Rosinha”, realizado no Canecão (RJ). O espetáculo foi organizado por Jalusa Barcellos, da Secretaria Estadual de Cultura e apresentado por Sérgio Cabral. Contou com a direção geral de Haroldo Costa e a direção musical de Jorge Simas, e com a participação de Beth Carvalho, Célia Vaz, Claudette Soares, Toque de Prima, Dona Ivone Lara, Elton Medeiros, Francis Hime, Olívia Hime, João Nogueira, Joanna, Joyce, Leci Brandão, Marisa Gata Mansa, Miúcha, MPB-4, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Quarteto em Cy, Valéria Venturini, Zezé Motta, Clarisse, Cristóvão Bastos, Carlos Malta, Luciana Rabello e Carlinhos 7 Cordas, entre outros.

Constam da relação dos intérpretes de suas canções Martinho da Vila, Joanna, Zezé Motta, Rui Maurity, Tito Madi, Nana Caymmi e César Camargo Mariano, Wanderléa, Leci Brandão, Maria Bethânia e Paulinho Nogueira, entre outros.

Rosinha de Valença – Acalanto (1966)

“Consolação”‪ – Rosinha de Valença, 1966

Repertório Popular – Rosinha de Valença (1977)

 

Álibi Rosinha de Valença e Maria Bethânia

 

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