O Deus da Sacanagem: A Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro

Dificilmente algum brasileiro com mais de sessenta anos desconhece a figura emblemática de Carlos Zéfiro. Afinal, de alguma forma este cidadão contribuiu para a formação e/ou aprimoramento da atividade sexual dos seus inumeráveis leitores, adolescentes na sua maioria, também cúmplices do autor já que protegiam e guardavam os “catecismos”, preservando-os e, até, evitando que caíssem em mãos de membros do aparelho repressor da ditadura militar.

Durante as décadas de 1950 a 1970 os famosos “catecismos” eram passados de mão em mão como um segredo de estado. Mas seria mesmo o funcionário público Alcides Aguiar Caminha o famoso Zéfiro? Ou haveriam “vários” Zéfiros? Ou ainda, seria possível que o verdadeiro autor que influenciou e ainda influência diversos artistas brasileiros, fosse outra pessoa, que nunca teve coragem de se apresentar como tal?

Carlos Zéfiro é o pseudônimo do funcionário público brasileiro Alcides Aguiar Caminha nasceu no Rio de Janeiro em 25 de setembro de 1921

Casado desde os 25 anos, com Dona Serat em 1946, o casal teve cinco filhos, aposentou-se como funcionário público do setor de Imigração do Ministério do Trabalho. Ele sempre escondeu de toda a família sua atividade paralela de desenhista.

Autodidata no desenho, com o qual ilustrou e publicou, durante as décadas de 1950 a 1970histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por “catecismos”.

Manteve o anonimato sobre sua verdadeira identidade por temer ter seu nome envolvido em escândalo o que lhe traria problemas por se tratar de funcionário público submetido à Lei 1.711 de 1952 que poderia punir com a demissão o funcionário público por “incontinência pública escandalosa” e retirar os proventos com os quais mantinha a família.

Caminha começou a traçar seus desenhos eróticos em 1940, Além de seus trabalhos como ilustrador, Alcides Caminha foi compositor, inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil e parceiro de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, com quem compôs quatro sambas para a Mangueira, entre eles os sucessos: Notícia, gravado por Roberto Silva na década de 1950, e A Flor e o Espinho.

Alcides Aguiar Caminha, carioca boêmio, ilustrou e vendeu cerca de 500 trabalhos desenhados em preto e branco com tamanho de 1/4 de folha ofício (chegou a publicar num outro formato, 14 x 21 cm), um quadro por página contendo de 24 a 32 páginas que eram vendidos dissimuladamente em bancas de jornais, devido ao seu conteúdo porno-erótico, ficando conhecidos como “catecismos” e chegaram a tiragens de 30.000 exemplares.

Em 1949 publicou de forma independente seu primeiro folheto erótico, estimulado pelo amigo Hélio Brandão, dono de um sebo na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Hélio se encarregava de providenciar a impressão e distribuição clandestinas dos folhetos.

Entre as décadas de 40 e 80, o pacato funcionário público carioca Alcides Caminha viveu no subúrbio de Anchieta e de lá escondeu de todo mundo, inclusive da polícia, que era o desenhista Carlos Zéfiro, autor das famigeradas revistinhas de sexo explícito em quadrinhos conhecidas como “catecismos”.

Zéfiro fez a alegria de adolescentes, que pouca ou nenhuma informação tinham sobre sexo, em uma época de forte repressão moral, promovida por entidades conservadoras, políticos, juízes, educadores e religiosos.

 

Com o dinheiro dos primeiros trabalhos, comprou alvenaria e cimento para construir sua casa. A obra de Zéfiro é dirigida ao “garanhão heterossexual”, gabava-se de “pular a cerca” e dizia que a maioria das aventuras sexuais retratadas eram inspiradas em histórias reais, vividos por ele.

Ao mesmo tempo, o mestre pregava a sedução e o respeito como principais condutores para levar uma mulher para a cama. E o prazer delas também é essencial.

Primeiro, suas revistinhas foram consagradas por todo o Rio de Janeiro. Depois, espalharam-se pelo Brasil, com um detalhe: por causa da ditadura, eram sempre vendidas às escondidas.

Os “catecismos” eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito, e impresso em diferentes gráficas em diferentes estados da Federação, gerando, inclusive, diversos imitadores.

Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas. Chegou-se a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas a investigação terminou inconclusa

Caminha revelou sua identidade em uma reportagem de Juca Kfouri para Revista Playboy (onde era editor na época) que foi publicada em 1991, após saber que o quadrinista baiano Eduardo Barbosa havia declarado ser o verdadeiro Carlos Zéfiro. o desenhista disse ao jornal A Notícia que ele era o “deus da sacanagem”.

Houve uma espécie de duelo, na época, Barbosa desafiou Caminha a uma espécie de “concurso público”: desenhariam na frente de uma plateia e jurados definiriam quem seria o verdadeiro Zéfiro. O funcionário público recusou a proposta, por causa de uma catarata e uma paralisia, mas apresentou uma precisão de detalhes sobre as obras que seu concorrente não tinha.

em 1992, além de dar entrevistas aos principais veículos brasileiros, recebeu o Troféu HQ Mix, pela importância de sua obra (aliás, dois dias antes de falecer), foi astro de uma bienal de quadrinhos,

Caminha morreu em 5 de jul ho de 1992, aos 70 anos, nove meses após a bombástica entrevista. Mas nesse pouco tempo, recebeu todo o reconhecimento que merecia: Em novembro do mesmo ano

Em 1996, a cantora Marisa Monte usou seus desenhos no premiado CD Barulhinho Bom.

 

Fontes:
https://eitaxi.com.br/wp-content/uploads/2019/07/cropped-logo-eitaxi-2019-256.png
https://vejasp.abril.com.br/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal
https://odia.ig.com.br/
https://s.ebiografia.com/img/logo.png
Diversos.

 

Conheça ou relembre algumas histórias feito pelo Carlos Zéfiro:

https://www.carloszefiro.com › buildframe 

 

Compre e veja a biografia completa de Carlos Zéfiro

Livro “O Deus da Sacanagem: a Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro” por Gonçalo Junior

Gonçalo Junior: Carlos Zéfiro, o deus da sacanagem

Para falar sobre a vida e a obra de Carlos Zéfiro, desenhista das revistinhas pornográficas que faziam sucesso na clandestinidade nos “anos dourados”, o canal Fora de Sintonia entrevista em sua 25ª edição o jornalista Gonçalo Junior. Ele é autor da recém-lançada biografia “O Deus da Sacanagem – A Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro”. Os quadrinhos desenhados por Zéfiro eram conhecidos como “catecismos”, por terem o mesmo formato dos livrinhos usados nas igrejas para o ensino religioso. Um dos melhores filmes da fase explícita da Boca do Lixo foi inspirado nas histórias de Carlos Zéfiro: ““Os Anos Dourados da Sacanagem” (1986), de Paulo Antonione. Saiba quem foi Carlos Zéfiro, identidade que chegou a ser apropriada por outro desenhista antes do verdadeiro autor ser descoberto em 1991.

Nelson Motta

Entrevista no programa do Jõ Soares

 

 

 

 

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